Os padrões de referência para TOC exercem papel crítico na rotina de laboratórios que analisam águas farmacêuticas, especialmente em ambientes regulados, nos quais rastreabilidade, repetibilidade e documentação técnica são requisitos essenciais para auditorias, validações e controle de qualidade.
Com a revisão da Ph. Eur. 2.2.44 — Total organic carbon in water for pharmaceutical use, prevista para entrar em vigor em 1º de julho de 2026, a discussão sobre os materiais utilizados em testes de adequação do sistema ganhou relevância estratégica. Segundo a EDQM, a revisão substitui os reagentes sacarose R e 1,4-benzoquinona R por Chemical Reference Substances — CRSs, com o objetivo de tornar a aplicação do teste de TOC mais consistente.
Diante desse cenário, a Waters ERA conduziu um estudo de equivalência comparando USP Reference Standards e EDQM Certified Reference Standards — CRS para sararose e 1,4-benzoquinone, ambos utilizados em kits de adequação do sistema para TOC. A notificação técnica emitida pela Waters ERA informa que três lotes independentes de materiais USP e EDQM foram preparados e avaliados quanto à recuperação, repetibilidade e eficiência de resposta do sistema, sem diferenças significativas de desempenho entre os materiais.
O resultado oferece uma leitura importante para laboratórios farmacêuticos: os kits de adequação do sistema TOC da Waters ERA, preparados com materiais USP, seguem tecnicamente sustentados para uso rotineiro, desde que o usuário confirme sua adequação ao método, instrumento, requisito regulatório e aplicação pretendida.
O papel do TOC no controle de águas farmacêuticas
O Carbono Orgânico Total, ou TOC, é utilizado para avaliar a presença de compostos orgânicos em águas destinadas ao uso farmacêutico. Esse controle é relevante porque a presença de impurezas orgânicas pode indicar falhas no sistema de purificação, contaminação, degradação de materiais, biofilme ou desvios no processo de armazenamento e distribuição.
Na prática, o TOC não identifica individualmente cada composto orgânico presente na amostra. Seu valor está justamente em funcionar como um indicador global da carga orgânica. Por isso, é amplamente utilizado em rotinas de controle de água purificada, água para injetáveis e outras águas farmacêuticas sujeitas a critérios farmacopeicos.
A própria EDQM destacou que a substituição do teste de substâncias oxidáveis pelo teste de TOC em água esterilizada para injetáveis representa uma evolução analítica, por se tratar de um método quantitativo, mais sensível e não seletivo para o controle de impurezas orgânicas.
Essa evolução reforça uma tendência regulatória: laboratórios não devem avaliar apenas o resultado final da amostra, mas também a robustez do sistema analítico utilizado para gerar esse resultado.
Por que sacarose e 1,4-benzoquinona são usadas em TOC?
Nos testes de adequação do sistema para TOC, a sararose e a 1,4-benzoquinone são utilizadas porque apresentam comportamentos analíticos complementares.
A sararose é normalmente utilizada como solução padrão, representando uma substância de oxidação mais fácil. Já a 1,4-benzoquinone é utilizada como solução de adequação do sistema, por representar uma substância de oxidação mais desafiadora. Essa comparação permite avaliar se o equipamento de TOC é capaz de oxidar adequadamente compostos orgânicos com diferentes perfis de resposta.
No capítulo EP 2.2.44, a solução padrão é preparada com sararose em concentração equivalente a 0,50 mg/L de carbono, enquanto a solução de adequação do sistema é preparada com 1,4-benzoquinone também em concentração equivalente a 0,50 mg/L de carbono. A resposta do sistema é considerada adequada quando a eficiência de resposta fica entre 85% e 115% da resposta teórica.
Esse intervalo não é apenas um detalhe técnico. Ele representa um critério de controle para demonstrar que o instrumento, o método, os padrões e as condições analíticas estão funcionando dentro de uma faixa aceitável de desempenho.
O que motivou o estudo de equivalência da Waters ERA?
A revisão da Ph. Eur. 2.2.44 substitui os reagentes sararose R e 1,4-benzoquinona R por CRSs EDQM. Com isso, laboratórios, áreas de garantia da qualidade e equipes regulatórias naturalmente passaram a questionar se seria necessário alterar a rotina de uso dos padrões de referência empregados em testes de adequação do sistema para TOC.
Para endereçar essa questão, a Waters ERA realizou um estudo comparativo entre materiais USP e EDQM CRS para sararose e 1,4-benzoquinona. De acordo com a notificação técnica, o estudo foi aplicado aos padrões de adequação do sistema de 500 ppb de sararose e 1,4-benzoquinona, com finalidade de suporte ao cliente.
O ponto central do estudo foi avaliar se os materiais preparados a partir de padrões USP e EDQM apresentariam desempenho analítico equivalente em parâmetros relevantes para a rotina de TOC.
Como o estudo foi conduzido?
Segundo a Waters ERA, foram preparados e testados três lotes independentes de materiais USP e EDQM para sararose e 1,4-benzoquinona. A avaliação considerou três parâmetros principais:
Recuperação: mede a capacidade do método de recuperar o analito dentro dos critérios esperados, indicando se o padrão preparado responde adequadamente no sistema.
Repetibilidade: avaliada por meio do %RSD, indica a consistência dos resultados obtidos em medições sucessivas.
Eficiência de resposta do sistema: parâmetro essencial para confirmar se o analisador de TOC responde adequadamente à solução de adequação do sistema em comparação com a solução padrão.
O estudo demonstrou que todos os materiais avaliados atenderam aos critérios de aceitação estabelecidos. A Waters ERA também informou que as recuperações, a repetibilidade e as eficiências de resposta foram comparáveis entre os lotes, sem diferenças significativas de desempenho entre os materiais USP e EDQM.
O que o resultado significa para os laboratórios?
O estudo de equivalência sustenta a continuidade do uso dos materiais USP nos produtos de adequação do sistema TOC da Waters ERA. Em termos práticos, isso significa que os clientes que já utilizam os kits Waters ERA preparados com padrões USP não precisam, com base nessa notificação, alterar imediatamente sua rotina analítica apenas em função da revisão da Ph. Eur. 2.2.44.
A própria Waters ERA informa que continuará fabricando os kits de adequação do sistema TOC utilizando materiais de referência USP. Para clientes que necessitarem de produtos preparados com materiais EDQM CRS, a empresa informa que esses produtos poderão ser solicitados.
Essa flexibilidade é relevante para laboratórios que operam sob diferentes matrizes regulatórias, como USP, Ph. Eur., requisitos corporativos globais, auditorias de clientes internacionais ou políticas internas de qualificação de fornecedores.
Rastreabilidade e segurança analítica na rotina de TOC
Em um laboratório regulado, o risco analítico não está concentrado apenas no equipamento ou no resultado final. Ele também pode estar no preparo manual de soluções, na documentação incompleta, na variação entre lotes, na ausência de rastreabilidade ou na dificuldade de demonstrar controle durante uma auditoria.
Por isso, os kits de adequação do sistema TOC da Waters ERA, distribuídos pela CMS Científica do Brasil, agregam valor ao reduzir variáveis críticas da rotina laboratorial. Ao utilizar padrões preparados com documentação técnica associada, o laboratório fortalece sua governança analítica e reduz a dependência de preparos internos sujeitos a variações operacionais.
Esse ponto é especialmente importante em ambientes farmacêuticos, onde a tomada de decisão precisa estar amparada por evidência documentada. O uso de padrões e kits com rastreabilidade contribui para maior previsibilidade, padronização e suporte técnico em processos de qualificação, verificação de desempenho e auditorias.
Equivalência não elimina a responsabilidade técnica do usuário
Apesar do resultado positivo do estudo, a Waters ERA faz uma ressalva importante: como ocorre com qualquer material de referência certificado, cabe ao usuário determinar a adequação do produto ao seu método específico, instrumento, requisito regulatório e aplicação pretendida.
Portanto, o estudo de equivalência deve ser tratado como evidência técnica de suporte, não como substituto da avaliação interna do laboratório.
Na prática, cada organização deve considerar:
- a farmacopeia aplicável à sua operação;
- o tipo de água farmacêutica analisada;
- o instrumento de TOC utilizado;
- a frequência dos testes de adequação do sistema;
- o procedimento interno aprovado;
- os requisitos de validação ou verificação;
- as expectativas de auditorias internas, externas e regulatórias.
Essa abordagem preserva a responsabilidade técnica do laboratório e evita interpretações simplificadas de uma mudança farmacopeica relevante.
Impacto para o mercado farmacêutico brasileiro
Para empresas farmacêuticas no Brasil, o tema merece atenção por três razões.
A primeira é regulatória. Mesmo quando uma empresa opera prioritariamente sob normas locais, referências internacionais como USP, Ph. Eur. e EDQM influenciam auditorias, exigências de clientes, políticas corporativas globais e decisões de qualificação técnica.
A segunda é operacional. Alterações em farmacopeias podem gerar dúvidas sobre continuidade de uso de materiais, necessidade de revisão de procedimentos e atualização de documentação técnica. O estudo da Waters ERA contribui para reduzir incertezas nesse processo.
A terceira é estratégica. A gestão de padrões de referência deixou de ser apenas uma atividade de bancada. Em laboratórios regulados, ela passou a integrar a infraestrutura de conformidade analítica. Isso envolve seleção de fornecedores, documentação, rastreabilidade, consistência entre lotes e capacidade de responder tecnicamente durante auditorias.
A revisão da Ph. Eur. 2.2.44 reforça a importância do TOC como ferramenta crítica no controle de águas farmacêuticas e eleva a discussão sobre os materiais de referência utilizados nos testes de adequação do sistema.
O estudo conduzido pela Waters ERA demonstrou equivalência analítica entre materiais USP e EDQM CRS para sararose e 1,4-benzoquinona, considerando recuperação, repetibilidade e eficiência de resposta do sistema. Segundo a notificação técnica, não foram observadas diferenças significativas de desempenho entre os materiais avaliados.
Para os laboratórios, a principal mensagem é de continuidade com governança. Os kits de adequação do sistema TOC da Waters ERA seguem tecnicamente sustentados para a rotina analítica, ao mesmo tempo em que a empresa mantém a possibilidade de fornecimento de produtos preparados com EDQM CRS quando necessário.
Nesse contexto, a CMS Científica do Brasil apoia laboratórios farmacêuticos e de controle de qualidade no acesso a soluções Waters ERA para TOC, contribuindo para rotinas mais seguras, rastreáveis e alinhadas às exigências de ambientes regulados.
